3/18/2009

Velvet Goldmine


Mais do que uma história, Velvet Goldmine é uma viagem alucinante pelo ambiente musical do chamado “Glam Rock” vivido em Londres no início dos anos 70. Nesta época, como não podia deixar de ser, a revolução musical estava intimamente ligada a uma revolução na cultura e nos valores vigentes.

Depois dos anos 60, dos Hippies e das flores, surge a liberdade sexual e a liberdade provocante de exibir comportamentos e estilos de vestir e de estar de uma grande ambiguidade sexual. Os grandes ídolos do pop rock passaram a pintar-se, a usar botas de salto alto, muita purpurina e lantejoulas, tudo o mais brilhante e colorido possível de forma a passar uma imagem andrógina e exuberante ao mesmo tempo. A música acompanhava o novo estilo, com letras provocantes e exibições em palco que deitavam abaixo qualquer regra moral.

Nesta obra, as personagens são ficcionais, prevalecendo apenas as músicas, verdadeiros ícones do Glam Rock, tocadas em versões de diversos artistas actuais como alguns elementos dos Radiohead e outros ligados a bandas da época como os “Roxy Music”. No entanto, os personagens Brian Slade e Curt Wilde, magnificamente interpretados por Jonathan Rhys-Meyers e Ewan McGregor são indubitavelmente inspirados nas performances de David Bowie e Iggy Pop nos anos 70. Desta forma, o imaginário e poder criativo do realizador juntou-se à realidade musical do pop-rock e pós-punk da época dando origem a este filme delicioso.

A estrutura do enredo foi criada de uma forma bastante hábil e relativamente simples: começa com o nascimento de Orson Wells e um broche verde que surge no cobertor do bebé e vai acompanhando toda a história e vários personagens como o símbolo do acto de sonhar (e, segundo Curt Wilde da imagem e do estilo).
A figura através da qual o nascer e desmoronar de uma estrela de rock é contada, é um jovem fã de Glam Rock, Arthur, que se torna jornalista e, 10 anos depois da saída de cena de Brian Slade (após simular o seu próprio assassinato em palco) é encarregue de fazer uma reportagem sobre o paradeiro da velha estrela.
Arthur, irrepreensivelmente interpretado por Christian Bale, desfia a história do Glam Rock na pessoa de Brian Slade, enquanto inevitavelmente é confrontado com o seu próprio passado, onde se cruza com as personagens da sua própria história. Arthur revê uma adolescência onde descobriu uma homossexualidade num ambiente de revolta e incompreensão por parte dos pais mas também num ambiente de sonho embriagante, alimentado pela admiração que sentia pelos artistas da época e a sua vida repleta de mistério e glamour.

Não poderia destacar uma só cena deste filme, pois são todas bastante interessantes e cada uma tem a sua beleza muito própria, mas destaco a excelente banda sonora e figurino. Não posso deixar de sublinhar mais uma vez as excelentes interpretações de Ewan McGregor, Jonathan Rhys-Meyers, e também de Toni Collette e Christian Bale e a forma sensível e verdadeiramente artística como o autor desenvolveu a relação dos 4 personagens interpretados por eles.

Devo confessar que quando percebi que Brian Slade ia ser interpretado por Jonathan Rhys-Meyers (que estou habituada a ver como o másculo Henry VIII na série “Os Tudors”) achei que não ia resultar mas, a forma como ele vestiu aquele personagem, a ingenuidade que lhe imprimiu nos primeiros tempos e a forma como ele e Ewan McGregor vivenciaram o seu romance foi simplesmente comovente…

Sou profundamente suspeita pelo apego que tenho ao estilo de música que constitui a banda sonora do filme mas, este é, sem dúvida, um musical muito bem conseguido. As músicas encaixam como uma pele em cada cena e embalam o filme como um sonho pleno de cenários brilhantes, misteriosos e irresistíveis.

3/16/2009

Rachel Getting Married


Rodado como uma produção caseira, “Rachel Getting Married” é a reportagem de um casamento e a radiografia de uma família de “gente normal” que passou por um momento difícil no passado.
A figura central do filme (o ângulo através do qual vemos este casamento e conhecemos esta família) é a irmã mais nova da noiva que sai de uma clinica para assistir a este casamento. Trata-se de uma rapariga com problemas de drogas que não se consegue perdoar pela morte do irmão (a seu cargo quando morreu de acidente num automóvel que ela conduzia sob o efeito de drogas).
Rachel é a noiva, é também a irmã mais velha que viu toda a atenção ser sempre dispensada à irmã problemática. Rachel é a "quase doutorada em psicologia" que compete em atenção com a irmã mais nova usando os truques mais básicos e infantis.
Temos, nesta obra, uma miscelânea de pessoas reais, imperfeitas, que buscam o seu lugar no mundo sem tentarem com muita convicção serem o que não são.
O mundo interior versus mundo que tentamos exteriorizar. A luta constante entre o que somos, o que queremos ser, o que julgamos que queremos ser e o que queremos que os outros pensem que somos.
A procura da felicidade e do bem-estar consciente num mundo complexo, cheio de seres que lutam com os seus próprios conflitos e mostram algo que está longe da verdade que guardam para eles próprios.
O relacionamento de duas irmãs e de uma mãe com uma filha que, sendo próximas pelos mais chegados laços sanguíneos não deixam de ser dois seres humanos completamente independentes na sua existência e luta pelo lugar no mundo.
Um filme que mostra a pessoa sem eufemismos e retoques de produção: o ser real com as suas dúvidas, defeitos e fragilidades, com os seus cinismos e incongruências.
O ser que quer estar nos centro das atenções, o ser que reflecte a opinião do próximo, que precisa de ser aceite para se aceitar a si mesmo, nem que para isso tenha que desafiar tudo e todos e testar os seus próprios limites.
Tudo isto se passa no casamento de uma rapariga branca comum com um rapaz negro comum, dois amantes de música alternativa, que misturam diferentes contextos culturais num casamento indiano povoado de convidados de todas as etnias. Um casamento onde se encontra a raça humana, plena de distinções e sabores, onde reina o reggae, o jazz, samba, onde todos são aceites e bem-vindos, com as suas particularidades e os seus defeitos… ninguém é julgado ou aclamado, simplesmente aceite…
Os conflitos humanos postos a nu…. Sem pudores ou hipocrisias… ou melhor, com todos os pudores e hipocrisias que fazem parte da nossa natureza.
Um filme que não vai bem com pipocas, tendo em conta o enorme risco de, a determinada altura, nos sentirmos um burro a roer palha.

9/10/2008

"Alone"


Entrar nos cinemas de São Jorge na noite chuvosa de 5 de Setembro foi uma experiência cómica. Uma festa de Haloween não teria sido tão pitoresca.
O primeiro pensamento que tive foi: “Para o ano tenho que me lembrar de vir mascarada!”.
Salvo raras excepções, homens e mulheres, na maioria jovens na casa dos 20 e 30 anos, trajavam a rigor. Não diria que pareciam vir de dentro de um filme de terror mas, decisivamente pareciam uma comunidade que se junta para um baile de máscaras. Fiquei com uma estranha sensação de divertimento e falta de seriedade ao mesmo tempo.
Pensei: “será que vou ver um filme de terror divertido, tal como no ano passado? Espero que não”.
De facto, não. Este ano o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa (MOTELx) revelou uma organização mais madura e eficaz. A programação também me pareceu mais cuidada. O facto é que, com 9 sessões esgotadas e 6500 espectadores, 30% a mais em relação ao ano passado, o festival não competitivo revelou-se uma aposta ganha.
Por mim, tive uma surpresa bastante “agradável”, se é que se pode dizer isso depois de passar por uma série de tumultuosos sentimentos de medo, angústia e sobressalto.
Para começar, a sala do São Jorge (na qual não me lembro de ter estado alguma vez) era enorme, o tamanho de umas três salas normais, o ecrã simplesmente gigantesco e, como já cheguei em cima da hora e a maior parte dos lugares já estavam ocupados, fiquei num lugar da frente.
A sessão teve início com uma curta-metragem espanhola: “Ya no puedo Camiñar” de Luis Berdejo. Gostei do argumento original e engraçado e, sem dúvida de espírito e ambiente tão pesado e tenebroso como o cinema espanhol deste género pode ser. Áspero e bruto, de uma crueza simples e frontal. Cada vez gosto menos mas tenho que reconhecer que é interessante dentro do género.
“Alone” realizado pela dupla de tailandeses Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom, que foi o filme que escolhi a dedo para marcar presença no MOTELx surpreendeu-me bastante.
Insere-se dentro do género de terror asiático que conheço: uma história de espíritos vingativos, mulheres ou crianças, que voltam para assombrar alguém. Neste caso, é a história de duas gémeas siamesas, sendo que uma delas supostamente morre na adolescência durante a cirurgia de separação.
Já na vida adulta, Pim, a gémea viva que vive na Coreia volta à Tailândia natal quando a mãe adoece. É aqui que começa uma aterrorizante assombração que culmina com a descoberta de um segredo de família terrível e macabro.
Sem ter uma história original, o filme está muito bem conseguido e excelentemente filmado.
A realização usou e abusou dos efeitos psicológicos de tensão obtidos com ângulos, jogos de luz e movimentos de câmara simplesmente perfeitos. Os efeitos sonoros também contribuíram bastante para adensar o ambiente e criar situações bastante pesadas.
Posso dizer que, no que me diz respeito, este é o verdadeiro filme de terror... Para além de mexer com o que desde sempre no meu imaginário significa o mais medonho que existe (o pós morte, as almas vingativas, o espírito maléfico) este filme é rodado de forma a construir as cenas da forma mais assustadora possível, criando uma tensão psicológica quase insuportável.
Saí da sala convencida que, se sofresse do coração estava perdida.
Saltei involuntariamente da cadeira uma dúzia de vezes. Já não conseguia suportar a pressão da expectativa de que algo de terrível fosse aparecer. Pensava “Aquela cara medonha e impossível de encarar vai surgir e eu não vou aguentar“ e, de facto sentia-me tão angustiada que olhava para o ecrã de lado...
Enfim, como uma história mais ou menos previsível e comum em que o fantasma pouco mais faz que assustar aparecendo uma série de vezes (e existindo até a possibilidade de ser apenas produto de uma mente culpada e doente) este filme está muito bem feito e cumpre magnificamente o seu objectivo de aterrorizar.
Fiquei muito satisfeita com o resultado. Finalmente um filme de terror de pôr os cabelos em pé.

1/02/2008

Lions for Lambs


Sem ser muito profundo Lions of Lambs tem, como principal mérito, mostrar uma faceta da realidade que escapa a muitos de nós.
Passado em tempo quase real, conta três histórias (aparentemente) distintas inseridas no contexto de guerra: neste caso uma missão no Afeganistão.
Na verdade, estas três histórias são peças muito importantes na engrenagem da grande máquina do poder.
Enquanto a missão se desenrola no Afeganistão, um professor de Ciência Política na Califórnia tem uma (comovente?!) conversa com um promissor aluno ao mesmo tempo que uma jornalista ouve a história da estratégia militar na versão de um senador americano.
Ensino, jornalismo e política ligam-se de uma forma muito cooperante e nem sempre clara. O jornalismo valida (ou não) a política, a economia dita as regras do jornalismo e a política pode condicionar a economia. Estão todos interligados e vivem numa relação de equilíbrio de forças e poder onde se ajudam ou derrotam de acordo com as conveniências do poder vigente (que actualmente é o económico).
E tudo começa na escola e nas universidades onde entre ideologias e o sonho de modificar o mundo se aprendem importantes lições de manipulação e eloquência. É o mesmo que dizer que na escola nos dão as armas para mudar o mundo ou contribuir para a sua (boa) evolução. Mas a vontade, muitas vezes, acaba vergada sob o peso dos poderes vigentes que mais do que pela força física se impõem pela informação filtrada que nos chega todos os dias e nos fornece aquilo a que ingenuamente chamamos realidade.

12/02/2007

Paranoid Park


Um adolescente inserido numa subcultura urbana é desviado das preocupações típicas da idade para se lançar num dilema existencial que vai preencher todo o espaço da sua consciência. Alex, um skater americano de 16 anos, mata um segurança acidentalmente e decide não contar nada a ninguém. É este o argumento de “Paranoid Park”.
Gus Van Sant, tal como em “Elephant”, conta-nos a história mostrando os factos num relato visual em que a câmara segue os movimentos dos personagens: segue-os de costas, de frente, segue os movimentos de um skater dentro do mítico “Paranoid Park”...
Não existe emoção nem acções violentas ou espaço para julgamentos éticos ou morais, temos apenas a visão crua dos factos.
O ambiente é outra coisa prodigiosa neste filme e Gus Van Sant sabe recriá-lo de uma forma tão singular quanto fiel à realidade. A subcultura do skate está recriada de uma forma perfeita, com as pessoas reais, os gestos reais, as expressões reais.
Dentro desta subcultura temos o adolescente Alex, que faz do skate a coisa mais importante da sua vida. Mas aqui, não nos é mostrado isso através de emoções ou sentimentos, mas por meio de imagens reais e factuais que não se diferenciam muito do que podemos ver com os nossos próprios olhos na rua. A diferença é que aqui temos o olhar objectivo mas ainda assim artístico que produz belíssimos planos e cenas completamente destituídas daquilo a que vou chamar “sentimento emocional”. O sentimento aqui é vazio de emoção, olhamos e podemos identificá-lo mas nunca senti-lo como se fosse parte de nós e emocionarmo-nos com ele.
Existe angústia e apatia perante tudo e todos e, uma grande crise existencial mas, tudo coberto com a névoa que separa o observador dos sentimentos vivos e fervilhantes no interior do personagem.
A solidão e desolação de todo o filme estão logo na primeira imagem da ponte de Portland: uma ponte verde e vazia recortada num campo que exala abandono e vazio. É este o tom dominante do espírito de Alex ao longo de todo o filme. A solidão absoluta de quem cometeu um assassinato (ainda que involuntário) e não o pode (quer) confiar a ninguém. A sensação de ter tirado a vida a alguém dominando toda a existência de um adolescente que não tem estofo psicológico para lidar com isso e se vai desligando da realidade.
Todo o filme se vai desenrolando enquanto Alex, a conselho de uma amiga vai escrevendo uma carta (confissão) onde descreve o acidente com o segurança enquanto apanhava comboios comerciais perto do Paranoid Park. Alex acaba por alargar o relato a outros aspectos da sua vida como a relação superficial com a namorada, o mundo do skate, a separação dos pais.
É muito interessante a imagem de Alex encaminhando-se para um banco de pedra no meio de um campo de erva, perto da praia. Aqui, fica a escrever a carta ao som do murmulhar das ondas e a sua imagem no banco, no meio do nada é a metáfora perfeita do seu isolamento do mundo e das outras pessoas. O mesmo posso dizer da magnífica cena do banho, quando a câmara parece parar num grande plano da cabeça de Alex curvada para o chuveiro, a água a cair de uma forma irreversível e desoladora revelando o ponto mais intenso da angústia do adolescente. Depois do acidente, Alex só tem tempo para se mexer instintivamente e abandonar o local do crime o mais rápido possível. E é ali em casa do amigo, completamente sozinho quando vai tomar banho, que tem pela primeira vez tempo para pensar e contactar com a realidade de ter matado uma pessoa. A escuridão, a água a correr de forma contínua e aleatória acentua a tensão e angústia que vai crescendo na sua consciência.
Alex é assim, arrancado da apatia e banalidade da vida que levava para cair numa nova apatia e melancolia que o faz viver constantemente encerrado no interior da sua própria consciência.
O jovem acaba por queimar as muitas folhas da carta que tinha escrito em mais uma lenta e deliciosa cena.
Destaco ainda as imagens de skaters a rodar num cilindro gigante de cimento em Paranoid park enquanto Alex adormece numa aula de química que finalizam o filme. Tal como outras cenas do filme, dariam para fazer um excelente documentário mudo sobre este mundo. As imagens são de facto magníficas.

8/20/2007

viagens #1


São Miguel- Açores

Este Verão descobri os Açores. Ao contrário do que esperava, a primeira imagem não é a do avião.
Quando olho pela primeira vez para S. Miguel já estou em terra firme, é noite e espero pacientemente que o meu saco pachorrento e enrugado surja atrás das rolantes malas dos outros passageiros.
Já na estrada, as primeiras sensações são de familiaridade, tranquilidade e sossego. Todas as seguintes são de deslumbre e uma encantada estranheza.



As lagoas são dos traços mais marcantes da paisagem micaelense.
Na “Vista do Rei” (um miradouro assim baptizado devido à passagem do rei D. Carlos por aquelas paragens) podemos desfrutar de uma perspectiva única da mítica Lagoa das Sete Cidades. A lagoa divide-se em duas: uma azul que é maior e uma menor de um intenso verde, característica que deu origem à conhecida lenda associada à Lagoa das Sete Cidades.
A original beleza desta lagoa está sobretudo ligada ao panorama desfrutado dos miradouros. Quando chegamos às Sete Cidades, a poética beleza da lagoa esfuma-se dando lugar à pitoresca e encantadora vila com as suas casinhas e igreja típicas.



A Lagoa do Fogo, classificada como reserva natural desde 1974, é outra paragem incontornável para quem visita a ilha de São Miguel. Aqui, a paisagem é mais selvagem e virgem. Parece que se conservou no tempo intocada pelo homem.
A subida até ao local da lagoa é cheia de surpresas. A estrada é atravessada por nuvens frias e húmidas que escondem a paisagem numa envolvência branca e macia. Parece que estamos num qualquer país do Norte da Europa.
Um pouco mais à frente, como por magia, o húmido frio dá lugar a um calor também húmido e quase insuportável apesar de raramente a temperatura ultrapassar os 25 graus.
Em São Miguel a humidade do ar ronda os 80 % o que acentua bastante a temperatura e nos faz andar sempre “pseudo-transpirados”.
Já na Lagoa do Fogo, um caminho pedestre improvisado leva-nos até às margens. Nesta descida longa e atribulada, somos presenteados pelos encantos da paisagem que se revelam em novas e magníficas perspectivas a cada metro de descida.



Já lá em baixo o sentimento é de solidão absoluta! Vemos um ou dois turistas aventureiros que logo desaparecem entre a vegetação da encosta ou o lado mais longínquo da margem da lagoa.
O som das várias espécies de aves que têm na lagoa o seu habitat proporciona uma experiência incomparável. Sentimos que estamos num dos últimos locais verdadeiramente iguais ao que eram quando surgiram na terra. Além de ouvir, também conseguimos ver algumas espécies raras de aves que encontram ali um meio adequado para viver.
Apesar do atribulado passeio (talvez o difícil acesso seja o motivo da ausência de “sinais humanos” nesta zona) é gratificante descer dezenas de metros para usufruir de sensações únicas que palavras ou imagens não conseguem descrever.



No caminho de regresso vale a pena passar pela Caldeira Velha, um local de manifestação vulcânica rodeado pela vegetação mais rica e luxuriante que vi na ilha. É mais um cantinho deslumbrante!
Uma piscina natural de água morna e convidativa, alimentada por uma pequena queda de água quente, surge semi-ocultada pela vegetação.
Aqui, já existem bancos e umas simpáticas casinhotas de madeira que devem ser usadas para vestir roupa de banho.
Hoje, é inevitavelmente um sítio associado à personagem “Mariana” da novela da TVI “Ilha dos Amores” que é filmada nos Açores. Os objectivos turísticos da produção parecem estar a ser cumpridos.



O fumarento Vale das Furnas é um dos sítios mais curiosos que já vi. No centro de um extenso verde encontra-se uma pitoresca vila coberta de um ténue fumo quente e húmido.
Este cenário onírico deve-se à actividade vulcânica secundária existente sobretudo nesta parte da ilha.



O Parque Terra Nostra nas Furnas é uma mistura prodigiosa do talento do homem com a natureza. É um riquíssimo jardim botânico que remonta ao ano de 1780 quando o inglês Thomas Hickling decidiu construir no Vale das Furnas a sua residência de Verão. O Parque como conhecemos hoje é obra dos vários proprietários que teve desde então.



Rico em vegetação exótica e árvores centenárias, o parque é atravessado por caminhos românticos e lagos sumptuosos. O cenário é completo por gansos negros que se passeiam graciosamente nas margens dos lagos. São tão mansos que vêm comer à mão, desde que tenhamos uns pedaços de bolo lêvedo para lhes oferecer.
Um lago-piscina de águas termais férreas é o principal atractivo do parque. O lago é alimentado por uma boca de água quase fervente o que torna as águas agradavelmente quentes.
Saio das Furnas com a convicção de que é o sítio ideal para ter uma casinha de férias com um pequeno quintal. De certeza que havia de encontrar um espacinho para alguns luxos: uma cozinha subterrânea natural, uma piscina de água quente e uma fonte de água gasosa para completar o cenário perfeito. E tudo isto faz bem à saúde e é gratuito.



Perante a visão da Lagoa das Furnas viajo no tempo e na realidade até à Era Medieval onde, pouco mais existe do que paisagens idílicas e carregadas de mistério.
No imaginário medieval não existe paisagem mais perfeita que esta lagoa de águas incrivelmente verdes protegidas por um poderoso exército de vegetação selvagem e serena.
A neblina sobre as águas da lagoa e um negro edifício gótico plantado nas suas margens conferem os últimos retoques àquele ambiente sombrio e misterioso.
Esta é uma daquelas paisagens que julgava existirem apenas nos recantos de uma imaginação repleta de fantasia.



À primeira vista o edifício gótico parece um pequeno palácio negro, porventura obra de algum excêntrico endinheirado. Depois, uma cruz minimalista no alto da torre denuncia o carácter religioso da construção. Chegando um pouco mais perto reforça-se a maravilha e a revelação das paredes repletas de preciosos vitrais coloridos representando passos da vida de Nossa Senhora das Vitórias, desde o nascimento à sua Assunção. Este templo representa um mistério por si só, com as suas paredes de um vermelho enegrecido.
Estamos perante a Ermida de Nossa Senhora das Vitórias, mandada erigir pelo micaelense José do Canto depois de uma promessa a Nossa Senhora quando a sua esposa esteve doente. Este pequeno modelo das grandes catedrais góticas foi inaugurado no dia 15 de Agosto de 1886.
Hoje, a ermida encontra-se encerrada e abandonada mas nunca ignorada, continuando a exercer um magnetizante fascínio por quem passa pela lagoa e se confronta com um gótico recorte negro reflectido nas suas águas.



Nas Furnas, o vulcanismo manifesta-se em poças de águas ferventes (géisers, fumarolas e lamas de efeito terapêutico) e nascentes de água quente. Estas características tornam a freguesia das Furnas um importante centro termal (possui vinte e duas fontes termais).
Estas águas fumarentas e de forte cheiro a enxofre são usadas também para complementar o comércio turístico desta zona. Os vendedores dos pequenos quiosques da zona cozem maçarocas de milho colocadas dentro de sacas e mergulhadas nas escaldantes águas dos géisers. Estas maçarocas são mais um ex-líbris turístico desta zona.



À beira da Lagoa das Furnas encontramos a zona das fumarolas onde se confecciona o famoso "Cozido das Furnas".
Os vários montinhos de terra com placas de madeira que assinalam os cozidos fazem lembrar um pequeno "cemitério gastronómico". Os vários ingredientes do cozido colocam-se num recipiente fechado que vai ser enterrado num buraco com a profundidade de um metro. É o suficiente para usar a actividade vulcânica da terra como cozinha natural. Mais uma cortesia da ilha de São Miguel que se traduz num sabor único aliado a uma confecção no mínimo insólita.



É um delito gravíssimo sair do Vale das Furnas sem passar no Chalet da Tia Mercês. Nesta casinha típica, com cadeiras de palhinha no interior e mesas de cimento com árvores no centro no exterior, serve-se o melhor chá que já bebi.
Feito com o maravilhoso chá açoriano e água férrea saída da boca do jardim, este chá é incomparável a qualquer outro, pelo sabor e pela cor de um preto lácteo e profundo.
Acompanhado de uns biscoitos de coco, o ritual do chá é o perfeito final da tarde passada neste vale quente e cheio de sabor.



Entre os muito atractivos da ilha estão as pequenas praias de areia negra. Geralmente sem ondas e com uma temperatura bastante agradável atraem também pela beleza da paisagem.
Destaco a praia da Ribeira Quente com zonas de correntes mornas e areia escaldante e a praia dos Mosteiros com os ilhéus que se erguem do mar e dão um ar pitoresco à praia.



As manadas de vacas malhadas ou castanhas são uma constante no caminho, como pequenos bonecos que enfeitam um imenso mar de veludo verde. São parte integrante da paisagem e não é estranho encontrar algumas na estrada ou a olhar-nos com um ar indiferente à distância de um passo.



A ilha de São Miguel é um “País das Maravilhas” cheio de tesouros e segredos por descobrir. Para quem lá vai, fica a sensação que em cada recanto já visitado ainda se escondem pequenos nichos encantados por explorar.
Depois lá ter estado uma semana fiquei com a estranha certeza de ter visto tanto e tão pouco! Sei também que tudo o que se possa dizer ou escrever é sempre bastante redutor face ao incomparável encanto dos Açores.

5/31/2007

Quadro Dinâmico


Abandonando a sala de cinema ao fim de quase três horas de filme, fico com a sensação de ter visto uma obra de arte estranhamente completa e abstracta.
É verdade que o cinema joga com a imagem, a música e o movimento. Mas Inland Empire é mais do que isso. A forma de jogar com aqueles elementos é única, formando o verdadeiro mundo surrealista "lynchiano".
Não tenho qualquer pretensão de tentar explicar o filme. Não sei ainda quem tenha encontrado uma explicação convincente (nem conheço muitas pessoas que tentem).
A minha forma de olhar este filme é completamente diferente. Longe de esperar um enredo que se revele ao longo do filme ou o desmistificar de um grande mistério no final, encaro este filme como um grande e delicioso banquete para os sentidos e para a mente. Laura Dern, fotografia e música num ambiente negro e misterioso. Olhado deste ângulo não podia estar melhor!
Ao contrário do que se possa pensar, Inland Empire não é desprovido de sentido, muito pelo contrário. Tem o sentido do surrealismo puro e onírico da mente perturbada de uma mulher. Aqui, como em outros filmes de David Lynch ("Mulholland Drive", "Os últimos Sete Dias de Laura Palmer") a mulher personifica os traços mais obscuros e perturbantes da mente humana. Através da mulher Lynch faz cair todas as máscaras humanas e confronta-nos com os nossos piores medos, as frustrações mais recalcadas, as demências e fraquezas que jamais ousaríamos admitir.
Segundo o próprio Lynch, Inland Empire é um filme que nasce de uma ideia (começou com a ideia do monólogo de Laura Dern no cimo das escadas), neste caso uma das fases mais "dementes e imperceptíveis" do filme. As outras ideias nascem depois, uma e outra e muitas outras.
Temos assim, muito sucintamente, um filme dentro de um filme onde a determinada altura deixamos de perceber se estamos no filme principal ou no filme sobre o filme. A personagem de Laura Dern também se confunde com a personagem que interpreta no filme, deixamos de saber quem é quem. Finalmente a história, a ficção mistura-se com a realidade num conjunto de devaneios que são perceptíveis apenas quando isolados do resto do filme. O conjunto não tem qualquer sentido lógico e é aí que está a beleza de Inland Empire. Tudo aquilo não foi feito ao acaso, é produto de uma grande imaginação e um maior sentido estético. Inland Empire é de uma beleza imagética do início ao fim. Tudo isto numa mistura perfeita de música e interpretação.
Sem dúvida um dos mais arrojados filmes de David Lynch cuja apreciação depende de uma predisposição para a contemplação pura.