8/20/2014

Amesterdão - As Saudades

O cheiro quente e forte do chá de rooibos transporta-me imediatamente para o coração de Amesterdão. Passei os dias a beber este peculiar líquido, nas maiores canecas que encontrava nos armários do pequeno apartamento que estávamos a alugar.

Os cheiros e os sabores sempre tiveram, em mim, o fantástico efeito de alterar o tempo e o espaço, transportando-me para as minhas memórias, de uma forma tão vívida, que chegam a competir com a realidade.


Ficaram as saudades:

Das manhãs em que nos levantávamos cedo e, a caminho de um item da nossa extensa lista de sítios a visitar, parávamos para tomar café, sempre acompanhado de uma deliciosa bolachinha de manteiga e canela. Comia a minha, a do vinil, e acho que comia depois a da Sara e a do Bruno. :P

De respirar naquelas ruas ladeadas de maravilhosas casinhas típicas, com uma arquitetura de cidade de bonecas vintage, atravessada por dezenas de canais, emoldurados com centenas de bicicletas.

De me espantar com a quantidade de pessoas que circulam a grande velocidade, cabeças loiras em cima das suas bicicletas, com bebés de meses, duas ou três crianças à boleia, grades de cervejas debaixo dos braços, chapéus de chuva abertos, e vários sacos de compras. Todos sem capacete. Que espanto!

Das escadas verdadeiramente íngremes, do último andar de um prédio no centro histórico de Amesterdão, que subia e descia todos os dias com uma alegria indescritível. Do pequeno espelho, colado dentro na porta de entrada, onde nos "arranjávamos" antes de sair. Da mesa onde partilhámos refeições compostas com os fantásticos ingredientes que comprávamos, num grande supermercado, a dois quarteirões de casa. Era tudo tão bom, bonito e barato, que trouxe um balde de tomates cherry para casa (Sim, às vezes sou acometida por estas loucuras de gaja. Ah e tal, recuerdos de Amesterdão que tenhas trazido? O íman de frigorífico do costume e um balde de tomates.)! Bem, trouxe também um poster giríssimo que exibo, orgulhosamente, na parede da sala.

Saudades da chuva boa que se fez sentir muitas vezes, e que emprestou um ambiente ainda mais aconchegante e familiar àqueles dias.

Das corridas aos museus. Do contentamento infantil que senti no museu da cerveja. Dos filmes realizados pela minha imaginação, quando visitei a casa no barco, a casa de Rembrandt ou a casa típica de um burguês holandês do século XIX. Da comoção que senti em cada passo que dava na casa de Anne Frank, de como a minha imaginação se materializava naquelas paredes, ainda cobertas com as fotografias de estrelas de cinema, que a própria Anne ali colou para embelezar um pouco aquela casa/ cativeiro.

Dos passeios diurnos e noturnos pela Red Light Distrit: colorida e carismática como a tinha imaginado. De como achei as senhoras das montras bonitas e arranjadas.

Do sabor das cervejas verdadeiramente boas que se vendiam em qualquer bar, e que em Portugal são extremamente caras.

Dos mercados onde comia pernas de frango assado com molho de manteiga de amendoim, enquanto procurava ofertas para os familiares entre as várias barraquinhas que vendiam de tudo, desde roupas estrambólicas a objetos de utilidade duvidosa.

Passei os dias alienada do facto de não ser ali a minha casa.
Tenho esta coisa estranha que se apodera de mim sempre que gosto mesmo muito de um sítio: sinto-me mais em casa do que na minha própria casa, instalo ali a alma e crio memórias e um passado cheio de acontecimentos que, na verdade, nunca tiveram lugar.

Saudades daquele lugar feliz e sereno.























2 comentários:

Inês Tomé disse...

Que lindo post!
Texto muito bom e muito bem ilustrado.
Obrigada por partilhares!

Pseudo disse...

Cidade a revisitar, sem qualquer dúvida. Escrevi sobre a Holanda há precisamente um ano. :)